{"id":638,"date":"2020-01-16T18:48:34","date_gmt":"2020-01-16T18:48:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:8090\/?p=638"},"modified":"2020-01-16T18:48:34","modified_gmt":"2020-01-16T18:48:34","slug":"a-crise-brasileira-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cress-ba.org.br\/?p=638","title":{"rendered":"A crise brasileira\u00a0atual"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/03\/31\/a-crise-brasileira-atual\/?utm_content=buffer15914&amp;utm_medium=social&amp;utm_source=plus.google.com&amp;utm_campaign=buffer\" rel=\"noopener\" target=\"_blank\">*texto originalmente publicado em 31\/03\/2016 no blog da boitempo, acesse<\/a><\/p>\n<p>Iniciamos esse artigo com a seguinte&nbsp;nota metodol&oacute;gica:&nbsp;num texto do final dos anos 1850 em que criticara o &ldquo;m&eacute;todo da economia pol&iacute;tica&rdquo;, o fil&oacute;sofo alem&atilde;o Karl Marx (1818-1883) &ndash; que desde o final do ano de 1843, sob a influ&ecirc;ncia de Friedrich Engels, e n&atilde;o de Hegel (como acreditam os procuradores do MP-SP), aproximava-se dos estudos econ&ocirc;micos &ndash; faz uma observa&ccedil;&atilde;o que, por extens&atilde;o, serve-nos de preceito metodol&oacute;gico para a an&aacute;lise de outros aspectos &ndash; juntos ou separados &ndash; relacionados ao entendimento do mundo social. Trata-se do que ele chamou de &ldquo;viagem de retorno&rdquo;. Ao criticar os economistas cl&aacute;ssicos, Marx dizia que, embora partissem da realidade para desenvolver teoricamente os conceitos econ&ocirc;micos (&ldquo;[&hellip;] come&ccedil;am sempre pelo todo vivo: a popula&ccedil;&atilde;o, a na&ccedil;&atilde;o, o Estado&hellip; mas terminam sempre por descobrir, por meio da an&aacute;lise, certo n&uacute;mero de rela&ccedil;&otilde;es gerais abstratas que s&atilde;o determinantes, tais como a divis&atilde;o do trabalho, o dinheiro, o valor&rdquo;), eles pecavam por, ao inv&eacute;s de fazerem a &ldquo;viagem de volta&rdquo; &agrave; realidade, tiravam as conclus&otilde;es diretamente do plano do pensamento &ndash; onde, como dito, desenvolviam os conceitos. Dizendo de outro modo, ao n&atilde;o fazerem o caminho de volta ao real-concreto, as representa&ccedil;&otilde;es elaboradas pelos economistas &ldquo;volatilizavam-se em determina&ccedil;&otilde;es abstratas&rdquo;, enquanto que a &ldquo;viagem de retorno&rdquo;, o m&eacute;todo cientificamente exato, segundo ele, possibilitaria que as determina&ccedil;&otilde;es abstratas reproduzissem, de fato, a reprodu&ccedil;&atilde;o do concreto por meio do pensamento (ou seja, uma an&aacute;lise precisa de um momento da vida social).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; ancorado, portanto, nessa premissa metodol&oacute;gica, que se associa tamb&eacute;m &agrave; vis&atilde;o da dial&eacute;tica como algo externo e real e que &eacute; consubstanciada na luta, ora aberta, ora disfar&ccedil;ada, que &eacute; travada entre as classes (nas distintas &eacute;pocas que comp&otilde;em a Hist&oacute;ria), que este escrito buscar&aacute; se estruturar. A separa&ccedil;&atilde;o entre o que se pode considerar&nbsp;fato ontol&oacute;gico&nbsp;&ndash; como chamou Gy&ouml;rgy Luk&aacute;cs no auge de sua maturidade intelectual &ndash; do que &eacute;&nbsp;posi&ccedil;&atilde;o de valor&nbsp;&eacute; tamb&eacute;m uma observa&ccedil;&atilde;o importante para se ter em conta a trilha metodol&oacute;gica que ser&aacute; perseguida pelo autor dessas linhas. Ademais, cr&ecirc; o referido autor que, ao dispensar esses e outros centrais preceitos metodol&oacute;gicos, muitos autores brasileiros que se inscrevem na tradi&ccedil;&atilde;o marxista erraram em suas previs&otilde;es do ano de 2015 ao afirmarem ser totalmente fora de prop&oacute;sito a possibilidade de impeachment do atual governo central, ou mesmo n&atilde;o darem o real e o devido cr&eacute;dito &agrave; gesta&ccedil;&atilde;o subterr&acirc;nea que o pensamento &ndash; e tamb&eacute;m a a&ccedil;&atilde;o &ndash; conservador estava galgando. A aus&ecirc;ncia da an&aacute;lise do ponto de vista da totalidade tamb&eacute;m aqui explica a dificuldade de se clinicar o referido movimento (esbocei, em abril do ano passado, nesse blog, tal situa&ccedil;&atilde;o no ensaio intitulado &ldquo;As ra&iacute;zes da escalada conservadora no Brasil atual&rdquo;). Ser&aacute;, portanto, alinhavando-se nos&nbsp;fatos cotidianos reais, sem abdicar do edif&iacute;cio te&oacute;rico mencionado, que esse escrito ser&aacute; esbo&ccedil;ado. Feita essa considera&ccedil;&atilde;o preliminar, passemos &agrave; an&aacute;lise da mat&eacute;ria: a crise brasileira atual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A concilia&ccedil;&atilde;o de classes e a pol&iacute;tica &ldquo;classe-contra-classe&rdquo;<\/p>\n<p>Ao falarmos em concilia&ccedil;&atilde;o de classes j&aacute; &eacute; de se supor que duas classes com projetos distintos &ndash; e, em termos mais precisamente cient&iacute;ficos, em si, antag&ocirc;nicas &ndash; buscaram, ainda que mantidas suas independ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas (atestadas no DEM, no PSDB, etc., de um lado, e nos partidos de esquerda, de outro), firmar um acordo de governo nacional; foi o que se chamou, no in&iacute;cio, depacto social. Encabe&ccedil;ado pelo PT e por Lula a partir de 2003, esse projeto foi gestado, segundo nos conta Lincoln Secco no seu&nbsp;Hist&oacute;ria do PT&nbsp;(Ateli&ecirc; Editorial, 2011), a partir da seguinte constata&ccedil;&atilde;o: convencida a dire&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria do PT de que &ndash; segundo sua leitura &ndash; a &uacute;nica forma de se ultrapassar a parcela de cerca de 30% do eleitorado seria promovendo uma pol&iacute;tica de alian&ccedil;as mais ampla, o partido decidiu p&ocirc;r em pr&aacute;tica a alian&ccedil;a aberta com setores do empresariado, como foi o caso da chapa Lula\/Jos&eacute; Alencar (PT\/PL), exitosa nas elei&ccedil;&otilde;es de 2002; era a base, junto com outros fatores evidentemente, do surgimento no cotidiano da pol&iacute;tica do significativo termo &ldquo;Lulinha paz-e-amor&rdquo;. O fato de esse pacto ser encabe&ccedil;ado por um ex-l&iacute;der oper&aacute;rio n&atilde;o deixaria de levantar suspei&ccedil;&otilde;es, por exemplo, no mercado de a&ccedil;&otilde;es; a&nbsp;Carta ao Povo Brasileiro&nbsp;viria a p&uacute;blico para afirmar que o governo encabe&ccedil;ado pelo PT respeitaria todos os contratos e leis vigentes. Se, por um lado, o compromisso p&uacute;blico visava transmitir tranquilidade, por outro, restringiria e muito o campo de a&ccedil;&atilde;o pelas mudan&ccedil;as a serem postas em pr&aacute;tica pelo governo do PT a partir de 2003. Para os nossos fins, interessa dizer que &ndash; relativamente consciente, ou plenamente consciente; isso aqui &eacute; secund&aacute;rio &ndash;, assumido o leme do Estado brasileiro, formatou-se um gabinete ministerial que &eacute; a mais cristalina &ndash; e tamb&eacute;m coerente, e &eacute; mais para isso que se chama a aten&ccedil;&atilde;o aqui: para o significado ontol&oacute;gico ou de constata&ccedil;&atilde;o (pelo menos, de in&iacute;cio) &ndash; express&atilde;o do&nbsp;pacto social&nbsp;proposto: ministros alinhados com o mercado e com bom tr&acirc;nsito com os movimentos sociais &ndash; ou os chamados&nbsp;agente de press&atilde;o&nbsp;&ndash; passaram a compor a Esplanada dos Minist&eacute;rios a partir de 2003. Citemos como exemplo o minist&eacute;rio que tem como objeto a produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola: se em geral o Minist&eacute;rio da Agricultura fora assumido por setores ligados ao chamado agroneg&oacute;cio, o Minist&eacute;rio do Desenvolvimento Agr&aacute;rio (MDA) dirigiria mais as suas aten&ccedil;&otilde;es &agrave; pauta dos movimentos sociais do campo (a dura pol&ecirc;mica travada publicamente entre a Ministra da Agricultura, K&aacute;tia Abreu, e o Ministro Patrus Ananias, do MDA, sobre o latif&uacute;ndio corrobora a nossa afirma&ccedil;&atilde;o). Tal fato, e n&atilde;o importa aqui, uma vez mais, se inteira ou parcialmente consciente, &eacute; um elemento comum em todos os governos petistas, e consubstancia rigorosamente a proposta de concilia&ccedil;&atilde;o de classes (aqui dita em sentido de constata&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o como ju&iacute;zo de valor). Parte expressiva e altos quadros da esquerda brasileira, desde o princ&iacute;pio, viram em tal fato (a nomea&ccedil;&atilde;o de ministros alinhados ao mercado) o motivo para n&atilde;o consentir e a base, portanto, para a rejei&ccedil;&atilde;o absoluta ao governo do PT; a posi&ccedil;&atilde;o diante da problem&aacute;tica da pol&iacute;tica da concilia&ccedil;&atilde;o de classes s&oacute; n&atilde;o &eacute; menos problem&aacute;tica para tais cr&iacute;ticos por conta do fato de que os efeitos da realiza&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica de tais pol&iacute;ticas exigiriam, no m&eacute;dio prazo, um posicionamento igualmente pr&aacute;tico deles: ser contra ou a favor das pol&iacute;ticas de a&ccedil;&otilde;es afirmativas (como cotas nas universidades, pol&iacute;ticas de igualdade de g&ecirc;nero, etc.) e de defesa dos direitos humanos? Apoiar &ndash; com ressalvas ou n&atilde;o &ndash; ou rejeitar a expans&atilde;o de vagas em escolas de ensino superior tanto via cria&ccedil;&atilde;o de universidades p&uacute;blicas federais quanto por meio de programas de bolsas de estudos (parciais ou integrais), que contemplam, em geral, alunos de baixa renda (ainda que a expans&atilde;o via rede privada, mercantilizada, nas modalidades presencial ou &agrave; dist&acirc;ncia, n&atilde;o deixe de ser menos problem&aacute;tica tanto para os educadores como para os educandos)? Concordar ou discordar por completo do programa social de habita&ccedil;&atilde;o popular &ldquo;Minha Casa, Minha Vida&rdquo;? Acatar ou recha&ccedil;ar o programa Bolsa Fam&iacute;lia que, segundo levantamentos, foi respons&aacute;vel pela erradica&ccedil;&atilde;o da pobreza extrema no Brasil? Como se colocar diante do Programa Mais M&eacute;dicos (em especial, no Norte do pa&iacute;s), da valoriza&ccedil;&atilde;o do sal&aacute;rio m&iacute;nimo, do Plano Nacional de Assist&ecirc;ncia Estudantil (PNAES), do Programa de Aquisi&ccedil;&atilde;o de Alimentos (PAA), Universidade Federal da Integra&ccedil;&atilde;o Latino-Americana (UNILA), da obrigatoriedade do ensino de Hist&oacute;ria e Cultura Afro-Brasileira, do Brasil sem Mis&eacute;ria (ligado ao MDS), a diretriz de se atingir 10% do PIB no PNE, etc.? Ainda que, no plano te&oacute;rico, se aponte os limites estruturais da pol&iacute;tica de concilia&ccedil;&atilde;o, e no caso espec&iacute;fico, das pol&iacute;ticas sociais levadas a cabo pelos governos do PT, n&atilde;o se pode ignorar o fato de que &ndash; embora guiados, em geral, por um pragmatismo exacerbado e uma an&aacute;lise econ&ocirc;mica equ&iacute;voca &ndash; a inten&ccedil;&atilde;o subjetiva de seus agentes pol&iacute;ticos &eacute; conscientemente a chamada&nbsp;inclus&atilde;o social. E n&atilde;o &eacute; apenas a letra morta dos levantamentos que apontam isso; n&atilde;o raramente &eacute; comum observar o reconhecimento espont&acirc;neo da popula&ccedil;&atilde;o mais proletarizada dos efeitos de tais pol&iacute;ticas sobre ela (&eacute; a sociologicamente chamada &ldquo;mobilidade social&rdquo;; e aqui, vale dizer, a rela&ccedil;&atilde;o com esse p&uacute;blico assume um car&aacute;ter mais afirmativo &ndash; em rela&ccedil;&atilde;o aos seus direitos &ndash; do que nos modos de governo clientelistas de direita).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O arranjo macroecon&ocirc;mico de fundo que iria possibilitar as condi&ccedil;&otilde;es para o implemento das pol&iacute;ticas sociais acima mencionadas n&atilde;o iria ser promotor de maiores fissuras estruturais: a pol&iacute;tica de super&aacute;vit fiscal foi mantida, a taxa de c&acirc;mbio permaneceu m&oacute;vel, os juros foram mantidos em patamar elevado. A concilia&ccedil;&atilde;o de classes iria exigir menos das elites econ&ocirc;micas &ndash; em prol da propalada op&ccedil;&atilde;o pela governabilidade ao inv&eacute;s da ruptura &ndash; do que ela poderia dar. E isso, em si, &eacute; um justo mote para cr&iacute;ticas das mais acentuadas aos promotores da pol&iacute;tica de concilia&ccedil;&atilde;o (numa an&aacute;lise rigorosamente fundada na multilateralidade dos diversos fatos condicionantes da realidade, em especial a do governo em quest&atilde;o, &eacute; indispens&aacute;vel ter em mente que, num pa&iacute;s como o Brasil, que viu em 1964 seu presidente ser apeado do posto por sinalizar na dire&ccedil;&atilde;o de reformas sociais, uma inflex&atilde;o ou ruptura mal calculada pode ter efeitos traum&aacute;ticos; com tal afirmativa, por outro lado, n&atilde;o se busca justificar tais pol&iacute;ticas; se faz essa considera&ccedil;&atilde;o apenas por ser esta situa&ccedil;&atilde;o um dado objetivo da realidade, sendo ela poss&iacute;vel de ser suprimida apenas na ideia). N&atilde;o se pode deixar de considerar tamb&eacute;m que nas tratativas de alian&ccedil;as de apoio governamental e parlamentar determinados compromissos s&atilde;o permanentemente exigidos\/renovados &ndash; e n&atilde;o se pode dispensar isso no marco maior da an&aacute;lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em geral, foram (e continuam sendo) assaz t&iacute;midas as pol&iacute;ticas de taxa&ccedil;&atilde;o de altas rendas, condi&ccedil;&atilde;o para o disp&ecirc;ndio em pol&iacute;ticas sociais do fundo p&uacute;blico. Este, inclusive, &eacute; um dos n&oacute;s da situa&ccedil;&atilde;o atual: a pol&iacute;tica de desonera&ccedil;&atilde;o realizada no passado recente, combinada a outros fatores, evidentemente, mais a manuten&ccedil;&atilde;o do investimento em pol&iacute;ticas sociais, ajuda a descrever o atual quadro fiscal. A forma de enfrentamento proposta pela oposi&ccedil;&atilde;o conservadora &eacute; a conhecida conten&ccedil;&atilde;o\/supress&atilde;o de gastos [com a continuidade e at&eacute; eleva&ccedil;&atilde;o do&nbsp;super&aacute;vit prim&aacute;rio, a realiza&ccedil;&atilde;o de reformas, como a que desvincula o piso da aposentadoria do sal&aacute;rio m&iacute;nimo ou a que flexibiliza a CLT (o negociado prevalecendo sobre o que determina as leis trabalhistas), mudan&ccedil;as nas contribui&ccedil;&otilde;es sociais PIS\/COFINS, revis&atilde;o da &ldquo;cobertura&rdquo; da estabilidade do emprego no servi&ccedil;o p&uacute;blico; &eacute; s&oacute; ler o assustador artigo do &ldquo;velho-novo salvador-da-p&aacute;tria&rdquo; Arm&iacute;nio Fraga para o&nbsp;Estado de S&atilde;o Paulo, 13\/09\/2015, em que o mercador de ilus&otilde;es prop&otilde;e,&nbsp;a la&nbsp;Rodrigo Constantino, at&eacute; mesmo a revis&atilde;o do cap&iacute;tulo econ&ocirc;mico da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, impedindo qualquer regula&ccedil;&atilde;o do Estado sobre a economia]; &eacute; uma terr&iacute;vel mostra do que seria uma pol&iacute;tica inversa pura de&nbsp;classe-contra-classe. Com todas as limita&ccedil;&otilde;es e erros do cons&oacute;rcio atual de&nbsp;concilia&ccedil;&atilde;o de classes, &eacute; prefer&iacute;vel este &uacute;ltimo &ndash; e n&atilde;o se trata da subjetiva afirmativa do &ldquo;mal menor&rdquo;; objetivamente, todos os membros da sociedade brasileira sofreriam, para o bem ou para o mal, as consequ&ecirc;ncias duma mudan&ccedil;a de governo, independente das vontades particulares &ndash; ao primeiro; n&atilde;o que se deva encerrar nele os prop&oacute;sitos maiores da esquerda brasileira; mas este pode ser o ponto de partida para uma vindoura transforma&ccedil;&atilde;o superior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A efetiva&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica de alian&ccedil;as e o financiamento de campanhas<\/p>\n<p>Como se sabe, cabe ao Poder Legislativo encaminhar para a vota&ccedil;&atilde;o propostas &ndash; inclusive as do Executivo &ndash; para que as mesmas possam ter &ndash; ou n&atilde;o &ndash; for&ccedil;a de lei. Sem entrar no m&eacute;rito delas nesse instante, o fato &eacute; que esse foi um dos desafios que os governos do PT tiveramobjetivamente&nbsp;que encarar. Al&eacute;m das concess&otilde;es program&aacute;ticas, um desdobramento previs&iacute;vel da pol&iacute;tica de concilia&ccedil;&atilde;o, muita coisa se viu pela grande m&iacute;dia em torno de barganha pol&iacute;tica. O fato mais expressivo &ndash; e que iria ser respons&aacute;vel pelo maior desgaste ao PT ap&oacute;s a sua assun&ccedil;&atilde;o ao poder &ndash; foi o epis&oacute;dio da suposta compra do apoio de deputados por meio de mesada (o chamado &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo;). Analisada a quest&atilde;o por um prisma de classe, e sendo essa uma situa&ccedil;&atilde;o interna ao problema da pol&iacute;tica de alian&ccedil;as (n&atilde;o se pode consentir que deputados que se &ldquo;p&otilde;em &agrave; venda&rdquo; tenham convic&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica; este &eacute; o dado concreto do Parlamento brasileiro, e que, querendo ou n&atilde;o, o PT teve que encaminhar uma solu&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica), &eacute; poss&iacute;vel consentir, olhando a quest&atilde;o a partir do marco maior da efetiva&ccedil;&atilde;o &ndash; ainda que assaz moderada &ndash; do projeto de concilia&ccedil;&atilde;o, que tal epis&oacute;dio se inscreveria no marco da ressignificada frase de Maquiavel de que &ldquo;os fins justificam os meios&rdquo; (embora haja teses de que as condena&ccedil;&otilde;es levadas a cabo pelo STF em 2012 foram sem provas, o Supremo sentenciou com pena de pris&atilde;o o alto escal&atilde;o do partido). Foi o que, noutro lugar, chamei de &ldquo;o ped&aacute;gio (ou o pre&ccedil;o) que o PT teve que pagar&rdquo; para chegar ao poder, ao menos, vale dizer, segundo a leitura que a dire&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria do partido fez. O fato &ndash; que n&atilde;o tivera sido uma inven&ccedil;&atilde;o do PT (a &ldquo;compra de apoio&rdquo; para a emenda da reelei&ccedil;&atilde;o de FHC seria o caso mais emblem&aacute;tico) &ndash; foi, &agrave; exaust&atilde;o, explorado pela m&iacute;dia, que daria contornos de esc&acirc;ndalo inaudito, como se o decoro fosse algo sagrado &ndash; e o PT tivesse sido o maior dos hereges &ndash; na sociedade que, sem cerim&ocirc;nia, costuma dizer que &ldquo;todo mundo tem o seu pre&ccedil;o&rdquo;. Em resumo, o fato que se quer evidenciar aqui &eacute; que feita a op&ccedil;&atilde;o pelo caminho das alian&ccedil;as mais amplas &ndash; e a maioria dos interlocutores est&atilde;o menos propensos &agrave; ideologia do que a vantagens de todo tipo &ndash; uma hora ou outra iria se interpor o problema de como encaminhar a quest&atilde;o no sentido pr&aacute;tico-resolutivo. Se com &ldquo;mensal&atilde;o&rdquo;, ou se com &ldquo;caixa 2&rdquo;, conforme admitiu &agrave; &eacute;poca o ex-presidente do PT Jos&eacute; Dirceu, o principal a ser destacado a nosso ver aqui &eacute; a subordina&ccedil;&atilde;o desse mecanismo ao projeto maior &ndash; ainda que, como dito, muito t&iacute;mido e pass&iacute;vel de muitas cr&iacute;ticas. E isso, em certo sentido, torna a metodologia compreens&iacute;vel, se vista, claro, depurada da hipocrisia burguesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O outro grande problema em que se metera o PT diz respeito ao financiamento de campanha (com a tirada progressivamente consciente do horizonte da via revolucion&aacute;ria ou n&atilde;o-institucional). Parear com as grandes m&aacute;quinas partid&aacute;rias num pa&iacute;s de dimens&atilde;o continental como o Brasil, com a oposi&ccedil;&atilde;o e a m&aacute; vontade da grande m&iacute;dia, certamente n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil. E aqui se interp&otilde;e um&nbsp;problema objetivo: os custos (em todos os sentidos, de viagem, de material de campanha, etc.). Segundo o historiador e professor da USP, Lincoln Secco, autor de&nbsp;Hist&oacute;ria do PT, no Congresso do Partido em 1996 um grande rebuli&ccedil;o fora causado ao saber-se de que dinheiro de empreiteira havia entrado em campanhas pol&iacute;ticas do partido. Aquilo, como a hist&oacute;ria provou, era o embri&atilde;o de uma pr&aacute;tica que iria se repetir ulteriormente. E como capitalismo n&atilde;o rima com filantropia, n&atilde;o seria de se estranhar que a maioria das &ldquo;doa&ccedil;&otilde;es&rdquo; de campanhas feitas ao partido n&atilde;o fosse desinteressada; e &eacute; aqui que surge o problema atual da chamada &ldquo;Opera&ccedil;&atilde;o Lava Jato&rdquo;. As campanhas se tornaram eventos milion&aacute;rios; ainda que se possa questionar o profissionalismo das mesmas e os seus elevados custos, a quest&atilde;o aqui a ser colocada &eacute; que, do ponto de vista pr&aacute;tico, o PT teve que dar encaminhamento a esse problema do financiamento. E, quer queira, quer n&atilde;o, a arrecada&ccedil;&atilde;o de fundos de campanha n&atilde;o &eacute; das tarefas mais f&aacute;ceis &ndash; e aqui talvez concorra mais barganha do que exig&ecirc;ncia de concess&atilde;o ideol&oacute;gica (o bolso dos doadores fala mais alto!). O mesmo racioc&iacute;nio do t&oacute;pico anterior serve para o daqui: subordinado ao projeto, o problema das fontes de financiamento &ndash; j&aacute; que este &eacute; um problema para o qual se precisa encaminhar uma solu&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica, isto &eacute;, levantar os fundos de campanha &ndash; tamb&eacute;m &eacute; relativamente compreens&iacute;vel; ainda que tamb&eacute;m incida diminuindo a margem de atua&ccedil;&atilde;o do partido, esse seria tamb&eacute;m o &ldquo;ped&aacute;gio&rdquo; &ndash; segundo o entendimento de sua dire&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria &ndash; que o PT teria que pagar para chegar ao poder (algo coerente com a l&oacute;gica de n&atilde;o-ruptura com a institucionalidade adotada); &eacute; bom registrar que n&atilde;o se fala nada aqui em sentido fatalista. Tudo isso n&atilde;o impedira o partido de manter a bandeira do financiamento p&uacute;blico de campanha e de, no limite, levar a cabo a proposta de uma Reforma Pol&iacute;tica (nas&nbsp;Jornadas de Junho, em 2013, foi levantada oportunamente a bandeira da Constituinte Exclusiva para a Reforma Pol&iacute;tica e de um plebiscito). Dito abertamente pelos falsos moralistas da grande m&iacute;dia, a proposta do financiamento p&uacute;blico de campanha &ndash; uma clara tentativa de conter a promiscuidade entre o p&uacute;blico e o privado nas campanhas eleitorais &ndash; foi tida como &ldquo;impratic&aacute;vel&rdquo; no interior do Congresso Nacional. Os n&atilde;o t&atilde;o nobres articulistas s&oacute; n&atilde;o se lan&ccedil;ariam a campo para tentar entender por que tanta resist&ecirc;ncia entre os parlamentares ao fim do financiamento privado de campanhas (as famosas sobras de campanha do ex-presidente Collor talvez ajudem a situar um pouco o leitor sobre esse submundo da pol&iacute;tica).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por outro lado, &eacute; fato tamb&eacute;m que vantagens indevidas tenham sido obtidas por integrantes do partido; esses desvios individuais de conduta s&oacute; seriam agravantes se tivessem a total condescend&ecirc;ncia do partido, principalmente da dire&ccedil;&atilde;o (o desligamento do ex-secret&aacute;rio-geral, Silvio Pereira, em 2005, &eacute; emblem&aacute;tico). A espetaculariza&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica desses epis&oacute;dios, com o intuito, ora aberto, ora velado, de passar &agrave; opini&atilde;o p&uacute;blica a percep&ccedil;&atilde;o de que a agremia&ccedil;&atilde;o inteira &eacute; repleta de corruptos e criminosos, ofuscando e pondo a segundo plano o projeto partid&aacute;rio, al&eacute;m de ter sido bastante exitosa, e &eacute; isto que est&aacute; tamb&eacute;m na raiz da crise atual, concorre para o que &ndash; corretamente &ndash; a dire&ccedil;&atilde;o do partido tem chamado de criminaliza&ccedil;&atilde;o do PT (abundam-se nos dias correntes os exemplos do perigoso &oacute;dio ao PT e aos seus atuais maiores expoentes nos sucessivos, e assustadoramente corriqueiros, atentados &agrave;s sedes do partido, ao pr&eacute;dio do Instituto Lula, ou mesmo no enforcamento simb&oacute;lico de bonecos de Lula e Dilma em pra&ccedil;a p&uacute;blica! Os n&iacute;veis de &oacute;dio chegaram a um patamar t&atilde;o assustador que basta estar de trajes vermelhos para que se seja chamado pejorativamente de &ldquo;petralha&rdquo; ou, dada a especificidade da situa&ccedil;&atilde;o, ser agredido ou espancado, caso o transeunte tenha o azar de cruzar com uma aglomera&ccedil;&atilde;o de anti-petistas convictos).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A escalada conservadora<\/p>\n<p>Gy&ouml;rgy Luk&aacute;cs, um fil&oacute;sofo marxista nascido em Budapeste, na Hungria, nos &uacute;ltimos anos de sua vida sistematizou sua vis&atilde;o &ndash; que chamou de ontol&oacute;gica &ndash; da obra de Marx, e n&atilde;o s&oacute;, buscando, fundado nos germes deixados por ela, desenvolver o marxismo, escreveu que h&aacute; na vida social dois tipos de a&ccedil;&atilde;o teleol&oacute;gica: a que visa transformar um dado da natureza (trabalho) e a que visa a convencer outros homens a agir como se queira. Toda a a&ccedil;&atilde;o humana em sociedade pode ser reduzida a esses dois tipos de posi&ccedil;&otilde;es teleol&oacute;gicas. Seja na educa&ccedil;&atilde;o, nas ci&ecirc;ncias, na gest&atilde;o da f&aacute;brica, na pol&iacute;tica, ou mesmo na forma&ccedil;&atilde;o do que aqui chamaremos de correntes de opini&atilde;o. Em todas essas situa&ccedil;&otilde;es o elemento comum s&atilde;o as posi&ccedil;&otilde;es teleol&oacute;gicas de segundo tipo ou secund&aacute;rias. Pois bem. Vendo a realidade brasileira do ponto de vista de sua totalidade, &eacute; poss&iacute;vel entender que &ndash; sem perder o car&aacute;ter espont&acirc;neo em v&aacute;rios casos, mas que est&atilde;o eles, de um modo ou de outro, fundados nesse processo &ndash; h&aacute; um polo impulsionador conservador consciente novo na sociedade nacional. Diferentemente das tradicionais manipula&ccedil;&otilde;es sutis do notici&aacute;rio levadas a cabo pela grande m&iacute;dia &ndash; nem t&atilde;o sutis assim quando analisamos as &uacute;ltimas edi&ccedil;&otilde;es doJornal Nacional&nbsp;da&nbsp;TV Globo, ou vemos a supera&ccedil;&atilde;o, a cada nova edi&ccedil;&atilde;o, da panflet&aacute;ria&nbsp;Veja&nbsp;&ndash;, um polo alternativo passou a dizer &ndash; via blogs e com a ajuda inoculadora das redes sociais &ndash; em alto e bom som aquilo que o suposto c&oacute;digo de boa conduta jornal&iacute;stica das tradicionais redes de TV, r&aacute;dio e jornais muitas vezes n&atilde;o podia dizer abertamente. Refiro-me aos sites&nbsp;O Antagonista,&nbsp;O Implicante,&nbsp;Spotniks,&nbsp;Folha Pol&iacute;tica,&nbsp;Di&aacute;rio do Brasil,&nbsp;M&iacute;dia sem M&aacute;scara&nbsp;e outras v&aacute;rias p&aacute;ginas na rede social&nbsp;Facebook. Esse teria sido o efeito contr&aacute;rio, e inesperado, ao da democratiza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o (via internet) almejado pela esquerda. Na selva em que se tornou a internet para o cidad&atilde;o m&eacute;dio, isto &eacute;, aquele cidad&atilde;o incapaz de captar o DNA pol&iacute;tico da informa&ccedil;&atilde;o que lhe corre a tela (isto &eacute;, uma imensa parcela da popula&ccedil;&atilde;o), sites e mais sites passaram a bombardear not&iacute;cias difamat&oacute;rias &ndash; muitas delas falsas, inclusive &ndash; sobre o governo, o PT e a esquerda (os ataques ao deputado do PSOL Jean Wyllys servem para ilustrar o que se diz aqui); e a cada replique &ndash; ou compartilhamento, para ser mais afeito &agrave; linguagem cibern&eacute;tica &ndash; a corrente de car&aacute;ter conservador e\/ou reacion&aacute;rio &eacute; adensada. Poder&iacute;amos dizer que o efeito dos smarthphones hoje, a chamada internet ub&iacute;qua, analisando a hist&oacute;ria da comunica&ccedil;&atilde;o em perspectiva, &eacute; similar ao do surgimento do r&aacute;dio ou da m&iacute;dia impressa. As redes sociais, acessadas a todo instante via smarthphones, tal qual a famosa frase dita a um rep&oacute;rter pelo seu editor (&ldquo;Traga as fotos que eu cuido da guerra&rdquo;) durante a Primeira Guerra, ou a proposital mudan&ccedil;a de legenda &ndash; tamb&eacute;m durante a Grande Guerra &ndash; para impulsionar a revolta dos chineses por profana&ccedil;&atilde;o, ou mesmo o famoso epis&oacute;dio da invas&atilde;o marciana &agrave; Terra transmitida ao vivo pelo r&aacute;dio de Orson Wells, s&atilde;o uma nova forma de comunica&ccedil;&atilde;o que, tal como fora em suas respectivas &eacute;pocas a m&iacute;dia impressa e o r&aacute;dio, &eacute; uma coisa com a qual as pessoas ainda est&atilde;o se acostumando, principalmente o cidad&atilde;o m&eacute;dio, o tipo de cidad&atilde;o com pouca forma&ccedil;&atilde;o e viv&ecirc;ncia pol&iacute;ticas (e isso aqui deve ser objeto de pesquisa para a &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o social). Tendo em vista n&atilde;o ser mais poss&iacute;vel (pela pr&oacute;pria internet inclusive, por ela tamb&eacute;m provocar uma desmonopoliza&ccedil;&atilde;o do entendimento de qualquer fato, pela sua horizontalidade) manipula&ccedil;&otilde;es como as vistas na primeira metade do s&eacute;culo XX pelos&nbsp;mass media&nbsp;tradicionais, a internet, pelo anonimato da fonte, tornou-se ent&atilde;o um instrumento para divulga&ccedil;&atilde;o em massa de mentira &ndash; podemos citar aqui desde a divulga&ccedil;&atilde;o acrescida de um zero da evolu&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio de uma deputada federal por um partido que se situa no campo da esquerda at&eacute; a famosa informa&ccedil;&atilde;o (desmentida pelo pr&oacute;prio dono da empresa) de que o filho do ex-presidente Lula era dono da Friboi (e aqui entra a cumplicidade da grande m&iacute;dia com a mentira: alguma vez alguma emissora de TV fez alguma reportagem desmentindo esse e outros boatos?). Os grupos formados pelo aplicativo&nbsp;WhatsApps&atilde;o hoje talvez o mais importante canal de divulga&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea e em massa dessas not&iacute;cias difamat&oacute;rias (e em muitos casos falsas). Outro aspecto novo &eacute; o fato de que nas grandes cidades, como S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, o transeunte &eacute; confrontado o tempo inteiro com manchetes &ndash; e n&atilde;o not&iacute;cias &ndash; que d&atilde;o conta dos mais variados assuntos, dentre eles os de pol&iacute;tica; nas esta&ccedil;&otilde;es de metr&ocirc;, em bares, elevadores, o cidad&atilde;o &eacute; confrontado com a informa&ccedil;&atilde;o; e o problema maior nem &eacute; a informa&ccedil;&atilde;o, mas sim quem fornece a informa&ccedil;&atilde;o &ndash; em bares de S&atilde;o Paulo, por exemplo, muitas dessas not&iacute;cias s&atilde;o oriundas da&nbsp;Veja. &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ademais, os grupos para a a&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica conservadora (MBL, Vem Pra Rua, Revoltados Online), com atua&ccedil;&atilde;o nas redes sociais, bem como todo o quadro geral do mercado editorial de livros, da posi&ccedil;&atilde;o abertamente conservadora de articulistas em postos estrat&eacute;gicos da m&iacute;dia, inclusive com uma inflex&atilde;o mais radical &agrave; direita de alguns deles (cito aqui o artigo escrito por M&iacute;riam Leit&atilde;o &ndash; &ldquo;Mis&eacute;ria do debate&rdquo; &ndash; em que ela diz que Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo emburrecem o debate nacional), todo o caldo cultural conservador que vem perigosamente se adensando, tudo isso foi tratado em maiores detalhes no artigo por mim assinado&nbsp;As ra&iacute;zes da escalada conservadora no Brasil atual, publicado neste Blog da Boitempo, em abril de 2015, e continua tendo validade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O impeachment e o Golpe<\/p>\n<p>Os historiadores do Brasil Contempor&acirc;neo, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o do buf&atilde;o Marco Ant&ocirc;nio Villa (comentarista de&nbsp;Veja,&nbsp;Jovem Pan&nbsp;e do&nbsp;Jornal da Cultura), devem estar euf&oacute;ricos na expectativa do desenlace final dos epis&oacute;dios dos &uacute;ltimos meses. &Eacute; que uma boa pesquisa historiogr&aacute;fica ir&aacute; mostrar &ndash; num futuro pr&oacute;ximo &ndash; o qu&atilde;o s&oacute;rdida tem sido a urdidura que visa tirar a qualquer custo a presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff. Para se ter em conta os &uacute;ltimos acontecimentos, &eacute; preciso ampliar o campo de vis&atilde;o para o in&iacute;cio desse processo, e que remonta para o t&eacute;rmino das elei&ccedil;&otilde;es de outubro de 2014. Prescindir desse campo maior &eacute; n&atilde;o capturar o processo de pedido de impeachment em todas as suas fases, isto &eacute;, em sua integralidade. Ap&oacute;s a divulga&ccedil;&atilde;o do resultado eleitoral de 2014, a vit&oacute;ria da chapa Dilma\/Temer, que passou a ser considerada estreita ainda que com uma margem de cerca de 3 milh&otilde;es de votos, gerou um grande inconformismo entre os adeptos da chapa derrotada A&eacute;cio\/Nunes. Jornalistas da grande m&iacute;dia, como Diogo Mainardi, passaram a responsabilizar o eleitorado nordestino, a quem chamou de &ldquo;bovino&rdquo;, pelo rev&eacute;s. Na rede social&nbsp;Facebook&nbsp;muitos postaram imagem de luto demonstrando incredulidade com o resultado. Logo, surgiriam supostas den&uacute;ncias de abuso de poder econ&ocirc;mico, de urnas n&atilde;o estarem imunes a fraudes e os esperados discursos inflamados no Parlamento. E foi a&iacute;, no bojo desse clima de insatisfa&ccedil;&atilde;o, que surgiria a brecha para o pedido de afastamento da presidenta: descobriu-se que o governo havia feito uma pouco significante manobra cont&aacute;bil, que logo fora, pomposamente, batizada de &ldquo;pedaladas fiscais&rdquo;. Da&iacute; em diante essa passaria a ser a aposta da oposi&ccedil;&atilde;o inconformada com a derrota: cassar o mandato da presidente reeleita. A prova mais contundente da n&atilde;o-aceita&ccedil;&atilde;o do resultado das urnas foi o pedido feito pelo PSDB ao TSE de cassa&ccedil;&atilde;o da chapa Dilma\/Temer &ndash; no dia de sua diploma&ccedil;&atilde;o &ndash; e de nomea&ccedil;&atilde;o do segundo colocado, A&eacute;cio Neves, fato que renderia muita galhofa nos&nbsp;memes&nbsp;nas redes sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mal Dilma tomara posse, a oposi&ccedil;&atilde;o, capitaneada por A&eacute;cio Neves, em tom inflamado, passou a acusar a presidenta de &ldquo;estelionato eleitoral&rdquo; (tal reivindica&ccedil;&atilde;o ao senador seria justa se ele tivesse em mente o fato de a presidenta, numa in&uacute;til tentativa de ganhar a &ldquo;confian&ccedil;a&rdquo; do mercado, ter encarregado o ex-ministro Joaquim Levy a aplicar um ajuste em muito parecido com o seu). O reajuste nas tarifas p&uacute;blicas de energia e dos combust&iacute;veis iria fazer com que uma avalanche de cr&iacute;ticas ca&iacute;sse sobre a presidenta. Paralelo a isso, o juiz S&eacute;rgio Moro, respons&aacute;vel pela &ldquo;Opera&ccedil;&atilde;o Lava Jato&rdquo;, passa a ganhar uma notoriedade incomum com o desmonte e a revela&ccedil;&atilde;o de um esquema de pagamento de propinas na Petrobras. Para come&ccedil;o de conversa, como magistrado, seu papel deveria ser unicamente o de &ndash; com a temperan&ccedil;a que exige a fun&ccedil;&atilde;o &ndash; distinguir o que &eacute; il&iacute;cito em proveito pessoal do que estaria relacionado ao problema do financiamento de campanhas, uma quest&atilde;o que atinge a todos os partidos (a exce&ccedil;&atilde;o, dos com representantes no Congresso, &eacute; o PSOL); este seria o grande servi&ccedil;o que Moro poderia prestar &agrave; sociedade, ao contr&aacute;rio da incita&ccedil;&atilde;o cega do p&uacute;blico promovida (as pretens&otilde;es messi&acirc;nicas de Moro, e n&atilde;o menos problem&aacute;ticas, ou mesmo uma vis&atilde;o geral sobre a sua esp&eacute;cie de tese-guia, talvez fiquem mais claras se lido o artigo de sua autoria &ldquo;Considera&ccedil;&otilde;es sobre a opera&ccedil;&atilde;o&nbsp;Mani Pulite&nbsp;(M&atilde;os Limpas)&rdquo;, do n&atilde;o long&iacute;nquo ano de 2004). O cidad&atilde;o comum, tragado no seu agitado cotidiano por manchetes e not&iacute;cias de sucessivas a&ccedil;&otilde;es policiais, passaria a associar, induzido pela mesma superficialidade do notici&aacute;rio, toda pris&atilde;o da Lava Jato a um pol&iacute;tico ladr&atilde;o, e, com o desenrolar dos acontecimentos, passaria a ligar &ndash; &uacute;nica e exclusivamente &ndash; toda a corrup&ccedil;&atilde;o a um partido, o PT, e aos seus membros. Seria essa uma das principais fontes do &oacute;dio ao PT e a seus dirigentes que se v&ecirc; nos dias em curso. Se mantivesse serenidade e um ju&iacute;zo equ&acirc;nime, Moro trataria de relacionar a maioria dos eventos ligados aos partidos na Petrobras ao problema do financiamento de campanhas eleitorais (a prova retumbante desse fato veio &agrave; p&uacute;blico com a revela&ccedil;&atilde;o, estranhamente posta em sigilo logo em seguida por Moro, da &ldquo;lista da Odebrecht&rdquo; em que constam nomes de pol&iacute;ticos de agremia&ccedil;&otilde;es tanto da situa&ccedil;&atilde;o como da oposi&ccedil;&atilde;o). Entretanto, os fatos divulgados pareciam mais concorrer para uma espetaculariza&ccedil;&atilde;o dos acontecimentos, principalmente midi&aacute;tica, do que contribuir para a ci&ecirc;ncia clara do problema em todas as suas dimens&otilde;es por parte da sociedade &ndash; n&atilde;o foram poucos, por exemplo, os mandados de condu&ccedil;&atilde;o coercitiva, inclusive do ex-tesoureiro do PT (&uacute;nico tesoureiro de partido preso e condenado). A enxurrada de dela&ccedil;&otilde;es, condu&ccedil;&otilde;es coercitivas, pris&otilde;es, senten&ccedil;as, etc. consagrariam Moro &ndash; para o cidad&atilde;o que viria a ser chamado de &ldquo;coxinha&rdquo;, dada a sua ingenuidade, estreiteza de ju&iacute;zo cr&iacute;tico e escassez de fontes de informa&ccedil;&atilde;o &ndash; como uma esp&eacute;cie de &ldquo;novo her&oacute;i nacional&rdquo; [S&eacute;rgio Moro seria premiado pelo jornal&nbsp;O Globo&nbsp;como &ldquo;personalidade do ano&rdquo; (2015) e ministraria palestras, como para s&oacute;cios do grupo empresarial LIDE, que tem o empres&aacute;rio Jo&atilde;o D&oacute;ria, pr&eacute;-candidato do PSDB &agrave; prefeitura de S&atilde;o Paulo, como propriet&aacute;rio; segundo mat&eacute;ria da Rede Brasil Atual (RBA), para ser s&oacute;cio do LIDE &eacute; preciso ter um faturamento anual igual ou superior a R$ 200 milh&otilde;es].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora v&aacute;rios partidos tivessem sido citados na &ldquo;Lava Jato&rdquo;, como o PMDB e o PP, a grande m&iacute;dia &ndash; agindo com grande parcialidade &ndash; direcionaria todos os seus holofotes para um &uacute;nico &ndash; o PT. A cada pris&atilde;o de diretor da Petrobras &ndash; por ter recebido propina (no exterior, inclusive) para fraudar licita&ccedil;&otilde;es na estatal &ndash;, automaticamente a querela seguinte, junto com a cria&ccedil;&atilde;o de um hostil clima de suspei&ccedil;&atilde;o, iria girar em torno de quem teria sido o respons&aacute;vel pela indica&ccedil;&atilde;o\/nomea&ccedil;&atilde;o &ndash; prov&eacute;m da&iacute; a insistente tentativa de buscar implicar os altos quadros do governo, inclusive a presidenta Dilma e, mais recentemente pela m&atilde;o de Delc&iacute;dio, o ex-presidente Lula. Ali&aacute;s, &eacute; como se a predile&ccedil;&atilde;o ao roubo tivesse, em todos os casos, liga&ccedil;&atilde;o direta com quem nomeia ao cargo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi nesse clima de responsabiliza&ccedil;&atilde;o do PT por toda a corrup&ccedil;&atilde;o trazida &agrave; tona pela Lava Jato que o Brasil viu &ndash; com o expl&iacute;cito apoio da grande m&iacute;dia, bem como com o aparelhamento do Estado em S&atilde;o Paulo pelo governo estadual com a transfer&ecirc;ncia de hor&aacute;rio das partidas de futebol, libera&ccedil;&atilde;o das catracas do metr&ocirc; &ndash; explodir um movimento encarni&ccedil;ado contra o PT, com expressivas manifesta&ccedil;&otilde;es de rua em todo o pa&iacute;s. Mesmo com os fatos mostrando o contr&aacute;rio, como por exemplo a cita&ccedil;&atilde;o em pelo menos cinco dela&ccedil;&otilde;es premiadas do presidente do PSDB, A&eacute;cio Neves, ou mesmo a farra das contas na Su&iacute;&ccedil;a de Eduardo Cunha, a energia acumulada era exclusivamente canalizada, em forma de &oacute;dio, contra o partido do governo &ndash; o boneco infl&aacute;vel batizado de &ldquo;pixuleco&rdquo;, em que Lula encontra-se vestido em uniforme de presidi&aacute;rio, era a express&atilde;o do desejo m&aacute;ximo ao menos dos l&iacute;deres daquele movimento (a fil&oacute;sofa Marilena Chau&iacute;, em palestra na PUC-SP, dias atr&aacute;s, alerta para o fato de aquela multid&atilde;o de pessoas n&atilde;o possuir pauta reivindicativa). Os n&iacute;veis de intoler&acirc;ncia atingiriam picos t&atilde;o elevados que uma nova modalidade de protesto entraria em cena a cada apari&ccedil;&atilde;o da presidenta da Rep&uacute;blica na TV (noJornal Nacional, em pronunciamento em rede nacional ou mesmo durante os programas do PT): os chamados panela&ccedil;os. &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cada acontecimento, como rebaixamento da nota de cr&eacute;dito do Brasil por uma ag&ecirc;ncia de risco, a cada previs&atilde;o negativa de crescimento para a economia, o tema do impeachment entrava em cena no Congresso e, ardilosamente, pela grande m&iacute;dia (via articulistas). Dois personagens, inicialmente aliados, mas desde sempre amigos-da-on&ccedil;a, entrariam em cena para, no tabuleiro institucional, mover as pe&ccedil;as que, em outras palavras, significaria p&ocirc;r em marcha o impeachment &ndash; que &eacute; aqui, na realidade, o pseud&ocirc;nimo oficialesco de&nbsp;Golpe. Trata-se do bestial Eduardo Cunha e de Michel Temer, vice-presidente da Rep&uacute;blica, que se revelaria, com o desenrolar dos fatos, um homem desleal e ambicioso. Cunha &ndash; e o exerc&iacute;cio da sua presid&ecirc;ncia na C&acirc;mara dos Deputados prova isso &ndash; &eacute; um sujeito que possui as caracter&iacute;sticas condizentes com a de algu&eacute;m que precisa levar a cabo uma monumental trapa&ccedil;a pol&iacute;tica como &eacute; a de derrubar um presidente da Rep&uacute;blica. Frio, e ao mesmo tempo determinado, Cunha &eacute; um daqueles pol&iacute;ticos ao qual se distribui a tarefa do &ldquo;trabalho sujo&rdquo;; sem remorsos, ele a executa sem guardar dor na consci&ecirc;ncia; ao contr&aacute;rio, &ldquo;assume&rdquo; o personagem e nega at&eacute; o fim que fizera diferente: a sua declara&ccedil;&atilde;o numa reuni&atilde;o da CPI da Petrobras de que n&atilde;o possu&iacute;a contas no exterior &eacute; a prova cabal disso. C&iacute;nico da unha do dedo do p&eacute; at&eacute; o &uacute;ltimo fio de sua a cada dia mais parca cabeleira, Cunha sentiu-se um le&atilde;o por meses a fio na C&acirc;mara: manobrou, passou por cima do regimento, votou e aprovou a Lei das Terceiriza&ccedil;&otilde;es, a Redu&ccedil;&atilde;o da Maioridade Penal. Mas, parafraseando o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, no meio do caminho de Cunha haveria de ter uma &ldquo;pedra&rdquo;, que, em sentido literal, significaria uma enxurrada de den&uacute;ncias de corrup&ccedil;&atilde;o. Para o deleite dos historiadores, pois este &eacute; um dos desafios a serem destrinchados (j&aacute; que n&atilde;o &eacute; preciso muito esfor&ccedil;o para saber o qu&atilde;o hip&oacute;crita &eacute; o alto escal&atilde;o da sociedade nacional), &eacute; assustador como, num cen&aacute;rio em que se tem forte avers&atilde;o contra corrup&ccedil;&atilde;o, o menos cidad&atilde;o do que delinquente se mant&eacute;m inc&oacute;lume na presid&ecirc;ncia dos deputados (a prontid&atilde;o do STF, por exemplo, e do alvoro&ccedil;o criado, em barrar a nomea&ccedil;&atilde;o de Lula para ministro serve para contrastar com o tratamento leniente recebido h&aacute; meses pelo deputado n&atilde;o s&oacute; pela mais alta inst&acirc;ncia do judici&aacute;rio, pois possui foro privilegiado, mas tamb&eacute;m pela grande m&iacute;dia, interessada antes mais noGolpe&nbsp;do que com a moralidade p&uacute;blica; &eacute; bom lembrar tamb&eacute;m que o grampo das conversas entre Lula e Dilma, em que tentou-se num contorcionismo desesperador imputar &agrave; Presidenta o crime de obstru&ccedil;&atilde;o da Justi&ccedil;a, foi vazado um dia antes da cerim&ocirc;nia de posse do ex-presidente). E foi justamente ap&oacute;s a representa&ccedil;&atilde;o pedindo a sua cassa&ccedil;&atilde;o por ter mentido &agrave; CPI da Petrobras, juntamente com uma s&eacute;rie de outras den&uacute;ncias, que Cunha, utilizando-se da prerrogativa do cargo, aceitou o pedido de abertura do processo de impeachment feito por juristas que alegam que a presidente cometeu crime ao assinar decretos de suplementa&ccedil;&atilde;o or&ccedil;ament&aacute;ria sem a chancela do Parlamento e praticou as chamadas &ldquo;pedaladas fiscais&rdquo; (o nome pomposo, como dito, n&atilde;o deve impressionar). Trocando em mi&uacute;dos, o debate p&uacute;blico no pa&iacute;s ficar&aacute; obstru&iacute;do por seguidas semanas por conta da presidenta ter tomado dinheiro emprestado numa reparti&ccedil;&atilde;o estatal para cobrir gastos ordin&aacute;rios do governo. Aqui se percebe o qu&atilde;o se encaixa na engrenagem do&nbsp;Golpe&nbsp;um sujeito que re&uacute;ne em si as caracter&iacute;sticas vistas no Eduardo Cunha: &eacute; preciso ter frieza e n&atilde;o ter nenhum apre&ccedil;o pela lei, pela institucionalidade, para deflagrar &ndash; em t&atilde;o p&iacute;fia base &ndash; um plano, que por isso, &eacute; n&atilde;o s&oacute; s&oacute;rdido como ultrajante. Ap&oacute;s afoitamente tentar p&ocirc;r em marcha de uma s&oacute; vez, com chapa avulsa e voto secreto, numa tentativa t&iacute;pica de sujeitos n&atilde;o zelosos com leis, regras, tr&acirc;mites institucionais, o STF barrou a Comiss&atilde;o feita &agrave; imagem e semelhan&ccedil;a dos desejos do ainda ent&atilde;o presidente dos deputados. Ap&oacute;s idas e vindas, e aqui tem-se (novamente) um farto prato para o deleite e a an&aacute;lise dos historiadores, a Comiss&atilde;o Especial do impeachment tem em suas fileiras ningu&eacute;m mais, ningu&eacute;m menos do que o procurado pela Interpol, Paulo Maluf, o impoluto r&eacute;u no STF, Paulinho da For&ccedil;a, e as figuras bestiais de Eduardo Bolsonaro e do deputado-pastor Marco Feliciano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A segunda figura a mover-se no tabuleiro institucional para p&ocirc;r em andamento o&nbsp;Golpe&nbsp;&eacute; o vice-presidente, Michel Temer (PMDB). Dias ap&oacute;s o presidente dos deputados aceitar o pedido de impeachment, Temer, numa dessas tacadas a impressionar qualquer leitor de livro de Hist&oacute;ria pela ousadia e pelo ato destemido do personagem da trama, lan&ccedil;a uma carta em que &ndash; e as vestes legais &eacute; algo indispens&aacute;vel a todo golpe &ndash; assume formal e publicamente o seu &iacute;mpeto personalista e revela a todos o seu desprezo com a lealdade condizente a seu cargo, flagrante e assustadoramente demonstrada (pela carta) dias ap&oacute;s a presidenta da Rep&uacute;blica ter sido notificada da aceita&ccedil;&atilde;o do pedido de abertura de impeachment pelo ladravaz Cunha. Em outras palavras, Temer transmite sub-repticiamente um sinal de que ele est&aacute; a postos, pronto para servir aos golpistas, com quem aberta e despudoradamente se re&uacute;ne em uma ign&oacute;bil conspira&ccedil;&atilde;o. A &uacute;ltima movimenta&ccedil;&atilde;o em dire&ccedil;&atilde;o ao seu objetivo foi o an&uacute;ncio &ndash; a mais ou menos duas semanas da vota&ccedil;&atilde;o do relat&oacute;rio da Comiss&atilde;o do Impeachment &ndash; de rompimento do PMDB, do qual Temer &eacute; presidente, com o governo, mostrando, de modo irrefut&aacute;vel, toda a sua vileza de car&aacute;ter.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Qualquer an&aacute;lise, nos dias correntes, que tome o problema do impeachment sem essa dimens&atilde;o ampliada que remonta ao t&eacute;rmino das elei&ccedil;&otilde;es de 2014, como n&atilde;o desmentem os fatos, ao contr&aacute;rio, antes comprovam, incorrer&aacute; no erro de uma leitura parcial e incompleta da quest&atilde;o. Todo golpe, por recair sobre os seus defensores, incitadores e executores v&aacute;rias consequ&ecirc;ncias, &eacute; algo de dif&iacute;cil admiss&atilde;o p&uacute;blica &ndash; precisa ser camuflado! Por ser uma tentativa individual ou de um grupo de &ndash; sem respaldo legal &ndash; desalojar algu&eacute;m de imediato de um dado posto, &eacute; sempre revestido &ndash; ou melhor, travestido &ndash; de uma aparente (por ser falsa) legalidade (a moderna hist&oacute;ria francesa registra v&aacute;rios casos de golpes de Estado). S&oacute; pode ser levado a cabo por meio de uma grosseira manipula&ccedil;&atilde;o dos fatos &ndash; e aqui com a c&iacute;nica cumplicidade de muitos. O atual caso brasileiro se encaixa perfeitamente nessa designa&ccedil;&atilde;o geral de golpe. O que est&aacute; em jogo no Brasil &eacute; um&nbsp;Golpe&nbsp;porque se quer apear do mais alto cargo da Rep&uacute;blica (que fora preenchido a partir de decis&atilde;o soberana e direta de cada cidad&atilde;o) o leg&iacute;timo ocupante buscando-se, de antem&atilde;o &ndash; a partir de um desejo estabelecido&nbsp;a priori, por&eacute;m publicamente inconfess&aacute;vel &ndash;, encontrar, a todo custo, &ldquo;crimes&rdquo; e provas que impliquem a presid&ecirc;ncia para, ent&atilde;o, &ldquo;legitimar-se&rdquo; de modo farsante o seu impedimento. O que se tem na verdade, desde antes, &eacute; a n&atilde;o-aceita&ccedil;&atilde;o da derrota e o seu n&atilde;o-reconhecimento; a partir disso, e de toda inconformidade e alvoro&ccedil;o causados p&oacute;s-elei&ccedil;&atilde;o 2014, surgiu uma brecha (ou o mote) por meio da qual, j&aacute; que as comprova&ccedil;&otilde;es de fraudes no sistema de urnas eletr&ocirc;nicas seriam n&atilde;o s&oacute; complicadas (vale lembrar que o PSDB pediu auditoria junto ao TSE, algo que corresponderia a outrora tradicional &ldquo;recontagem de votos&rdquo;, e a mesma concluiu que n&atilde;o houve fraude), o inconformismo com a derrota poderia ter sobrevida; ter-se-ia encontrado, fortuitamente, o motivo &ldquo;legal&rdquo; para &ldquo;vencer&rdquo; a agora presidenta, e n&atilde;o mais candidata, &ldquo;justificando&rdquo;, ent&atilde;o, a sua sum&aacute;ria deposi&ccedil;&atilde;o: as pomposamente denominadas &ldquo;pedaladas&rdquo; [o pedido de inclus&atilde;o nos debates da Comiss&atilde;o Especial do impeachment da dela&ccedil;&atilde;o premiada do senador Delc&iacute;dio do Amaral em que ele diz que Dilma supostamente teria interferido no Judici&aacute;rio para barrar a Lava Jato &eacute; uma prova disso, ou mesmo a acusa&ccedil;&atilde;o obtida por meio de grampos telef&ocirc;nicos (!!) de que ela estaria tentando obstruir a Justi&ccedil;a por avisar &agrave; Lula que o seu Termo de Posse no Minist&eacute;rio estava &agrave; caminho]. Aos que, movidos pela paix&atilde;o, ou que estejam com a vis&atilde;o turvada pelo pulular dos acontecimentos, ou mesmo os legalistas, tendem a imputar plena legalidade ao processo de impeachment em curso &eacute; s&oacute; trazer &agrave; baila o fato de ex-presidentes, como Fernando Henrique Cardoso, terem se valido do mesmo expediente &ndash; sem nada lhes acontecer &ndash; para o qual se tenta agora justificar a &ldquo;raz&atilde;o&rdquo; para a deposi&ccedil;&atilde;o da presidenta; no m&iacute;nimo, pela &oacute;tica exclusivamente jur&iacute;dica, tem-se a&iacute; um caso para o qual j&aacute; se tem senten&ccedil;a (jurisprud&ecirc;ncia); &eacute; um processo, para o bem da justi&ccedil;a, natimorto [se outras raz&otilde;es justificarem o impedimento, por outro lado, ficar&aacute; comprovada a tese de que primeiro se incrimina (o pedido de impeachment), e depois se vai em busca das provas]. Em tal fato, portanto, se revela ruidosamente toda a l&oacute;gica manipulat&oacute;ria e conjurativa que muitos &ndash; e, portanto, caem-lhes bem o adjetivo de golpistas &ndash; preferem n&atilde;o observar. &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Democracia e transforma&ccedil;&atilde;o substantiva<\/p>\n<p>No com&iacute;cio realizado na Avenida Paulista, em S&atilde;o Paulo, na j&aacute; hist&oacute;rica sexta-feira dia 18 de mar&ccedil;o de 2016, Lula, que tem sido objeto de ca&ccedil;a dos procuradores do MP paulista (aqueles que revelaram de p&uacute;blico a sua ignor&acirc;ncia ao n&atilde;o saberem a diferen&ccedil;a entre quem foi Hegel e quem foi Engels) e do juiz S&eacute;rgio Moro (que, depois de autorizar a condu&ccedil;&atilde;o coercitiva, n&atilde;o s&oacute; grampeou o ex-presidente, como vazou para a TV Globo uma conversa dele com a presidenta, que tivera, com essa divulga&ccedil;&atilde;o, a prerrogativa de foro privilegiado violada), discursando para um mar vermelho de cerca de meio milh&atilde;o de pessoas, disse, entre algumas outras verdades, que n&atilde;o existe outro caminho na sociedade brasileira em que se possa conviver com a diversidade (de ideias) que n&atilde;o seja o da democracia. Para o objeto de sua fala [a conviv&ecirc;ncia entre diferentes (partidos, classes)], no imediato, a sua afirma&ccedil;&atilde;o est&aacute; correta; ela s&oacute; n&atilde;o abrange o fato de que as ideias s&atilde;o, no limite (e sem dedu&ccedil;&atilde;o direta), produtos das classes. Entendendo a democracia n&atilde;o apenas no seu sentido pol&iacute;tico e abstrato, pois, no capitalismo da &eacute;poca moderna, a igualdade &eacute; celestial (citoyen) e a desigualdade &eacute; terrena (bourgeois), e uma n&atilde;o se sobrep&otilde;e a outra, &eacute; perfeitamente admiss&iacute;vel a evolu&ccedil;&atilde;o gradual em dire&ccedil;&atilde;o a um autogoverno social em que a liberdade seja plena e universal &ndash; &ldquo;a condi&ccedil;&atilde;o para o&nbsp;livre&nbsp;desenvolvimento de um, seja a condi&ccedil;&atilde;o para o&nbsp;livre&nbsp;desenvolvimento de todos&rdquo; [supress&atilde;o das classes] (Marx; Engels.&nbsp;Manifesto Comunista; grifos meu). A aliena&ccedil;&atilde;o dos meios de trabalho &eacute; a &ldquo;pedra&rdquo; &ndash; novamente parafraseando o poeta Drummond &ndash; no meio desse caminho; sem a sua remo&ccedil;&atilde;o, a passagem rumo &agrave;quela liberdade continuar&aacute; obstru&iacute;da. E, como ela ainda se encontra cravada no &ldquo;meio do caminho&rdquo; em que a sociedade brasileira trilha em busca de sua plena emancipa&ccedil;&atilde;o, &eacute; mais do que correto afirmar que a divis&atilde;o em classes &ndash; cada dia mais complexa em suas subdivis&otilde;es &ndash; dessa sociedade ainda exige, por ser ela mais prefer&iacute;vel do que o arb&iacute;trio, a igualdade celestial da democracia. &Eacute; rigorosamente nesse sentido que os atos em defesa da democracia e contra oGolpe&nbsp;s&atilde;o justos: visam respeitar a vontade da maioria expressa nas urnas e impedir, por interm&eacute;dio de um golpe, a deposi&ccedil;&atilde;o da presidenta eleita. Nesse sentido, a defesa da legalidade democr&aacute;tica &eacute; algo que, em si, deve envolver a todos. &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No &uacute;ltimo dia 18, ao participar da manifesta&ccedil;&atilde;o num estado da regi&atilde;o Nordeste, um fato chamou-me a aten&ccedil;&atilde;o: ouvi, de dois l&iacute;deres populares, um protesto em favor do direito de comer carne. O que, a princ&iacute;pio, pode parecer algo trivial, deixa de ser na medida em que se atenta para o fato desse componente nutricional passar a integrar a dieta alimentar desse setor da popula&ccedil;&atilde;o; o despertar para a pol&iacute;tica adv&eacute;m exatamente da amea&ccedil;a de perd&ecirc;-lo. Desprezar esse epis&oacute;dio aparentemente banal &ndash; dentre outros tantos poss&iacute;veis e correlatos &ndash; &eacute;, literalmente, abdicar-se da luta econ&ocirc;mica do proletariado. Muito do que se v&ecirc; na onda conservadora &ndash; como a rea&ccedil;&atilde;o ao PBF por supostamente incentivar o &oacute;cio (&eacute; sabido que muitos dos benefici&aacute;rios t&ecirc;m no programa um &ldquo;complemento de renda&rdquo;, pois continuam trabalhando), &agrave;s cotas raciais, Escola sem Partido &ndash; &eacute;, sem mais, uma rea&ccedil;&atilde;o pequeno-burguesa a toda essa t&iacute;mida, por&eacute;m real, mobilidade social materializada pela a&ccedil;&atilde;o dos governos do PT. &Eacute; certo que, se esse projeto de concilia&ccedil;&atilde;o manter-se de p&eacute;, ante o caminho de polariza&ccedil;&atilde;o crescente (sem perspectiva de armist&iacute;cio pol&iacute;tico) que se v&ecirc; na sociedade brasileira, &eacute; prefer&iacute;vel aos que se colocam na perspectiva da classe oper&aacute;ria substituir aquilo que G. Luk&aacute;cs chamou de pol&iacute;tica destrutiva ou catastr&oacute;fica (Cartas sobre o stalinismo) por uma pol&iacute;tica de transforma&ccedil;&atilde;o cumulativamente substantiva. Dizendo de outro modo, diante das mudan&ccedil;as em curso (os programas sociais e as mudan&ccedil;as acima mencionadas), e da consequente ascendente polariza&ccedil;&atilde;o da sociedade brasileira, &eacute; mais vantajoso para o proletariado lutar em defesa e pela manuten&ccedil;&atilde;o das conquistas sociais e, ao mesmo tempo, envidar esfor&ccedil;os em dire&ccedil;&atilde;o a mudan&ccedil;as qualitativamente superiores, do que abdicar-se da arena em que se trava a luta maior e se inscrever numa ciz&acirc;nia est&eacute;ril e natimorta. Cito a t&iacute;tulo de demonstra&ccedil;&atilde;o o seguinte: imagine uma gal&eacute; cuja maioria dos remadores resolvem rumar a oeste; um pequeno grupo discorda por acreditar que eles deveriam remar para leste; o impasse persiste sem solu&ccedil;&atilde;o entre eles e ambos os grupos resolvem remar segundo as suas convic&ccedil;&otilde;es. &Eacute; &oacute;bvio que, por conta da maioria de remadores, esse barco atracar&aacute; ou seguir&aacute; em dire&ccedil;&atilde;o oeste; isso n&atilde;o invalida o fato de que muitos poderiam ser dissuadidos de remar a oeste e passassem a remar a leste. Mas, quando uma tempestade torrencial se avizinha no horizonte, a solu&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica para o impasse precisa ser encaminhada e a embarca&ccedil;&atilde;o precisa come&ccedil;ar a se mover. Essa seria uma situa&ccedil;&atilde;o an&aacute;loga ao que vivemos no Brasil de hoje. Ainda que a crise estrutural do capital e o pragmatismo petista no trato da quest&atilde;o econ&ocirc;mica cobrem no futuro o seu pre&ccedil;o, uma sociedade menos hostil a mudan&ccedil;as, ou pelo menos com os soldados prolet&aacute;rios dessas mudan&ccedil;as mais armados politicamente, &eacute; prefer&iacute;vel do que uma sociedade conscientemente gestada para o embrutecimento. &nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Rog&eacute;rio Castro&nbsp;&eacute; Doutorando em Servi&ccedil;o Social pela UFRJ; mestre em Servi&ccedil;o Social pela UFAL. Professor universit&aacute;rio e pesquisador da obra do fil&oacute;sofo marxista h&uacute;ngaro, Gy&ouml;rgy Luk&aacute;cs. &Eacute; autor de artigos em peri&oacute;dicos, jornais e sites especializados. Dentre os trabalhos publicados, destacam-se: &ldquo;Os 40 anos sem Luk&aacute;cs e o debate contempor&acirc;neo nas ci&ecirc;ncias humanas&rdquo; (Revista Servi&ccedil;o Social e Sociedade, n. 114); &ldquo;Celso Furtado e a forma&ccedil;&atilde;o do Estado brasileiro em Forma&ccedil;&atilde;o Econ&ocirc;mica do Brasil&rdquo; (Revista&nbsp;Cadernos do Desenvolvimento&nbsp;do Centro Internacional Celso Furtado, n. 14); &ldquo;O debate sobre o trabalho em Marx&rdquo; (Revista&nbsp;Praia Vermelha, UFRJ, v. 24, n. 2 &ndash; no prelo); al&eacute;m do ensaio, pelo Blog da Boitempo, &ldquo;As ra&iacute;zes da escalada conservadora no Brasil atual&rdquo;.&nbsp;(rogeriocastrouesb@hotmail.com).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise brasileira\u00a0atual<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4091,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-638","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=638"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/638\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cress-ba.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}